sábado, 17 de outubro de 2009

Saindo do transe

Eu escutei sua voz me chamando, pedindo ajuda. Segui seu cheiro, seu som. Fui ao seu encontro. Quando dei por mim, era tarde de mais, havia caído em sua armadilha. O óbvio não me causava desconfiança.
Fiquei com muito medo, tentava escapar, mas não queria. Era confortável ali, ao mesmo tempo me sufocava. Era muito quente, muito "acolhedor" e aquilo me assustava.
Só que eu acabei me acostumando, já nem lembrava mais como era minha vida antes da armadilha em que você me colocou. O calor ainda me sufocava, mas eu era capaz de suportar. Em dias muito quentes sentia a impressão de um dia algo fresco beijando meu rosto.
Até que um dia, você se calou, parei de escutar sua voz e foi como se as amarras se soltassem de imediato. A principio meu corpo doía, sentia falta daquilo, mas foi quando eu lembrei-me das minhas asas, foi quando elas abriram e eu pude novamente alçar voo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Eu já te disse isso!?

Todo mundo é patético, hipócrita, moralista, conservador, egoísta etc.
E sabe o que é pior?
Todos nós julgamos essas pessoas, mas esquecemos de enxergar que somos muito piores, pois estamos apontando o nosso imenso dedão para o outro.
O ser humano é ridículo.
Eu sou ridícula.

domingo, 4 de outubro de 2009

A gente se acostuma...

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(Marina Colassante)


Eu odeio me acostumar, mas já me acostumei com isso. =/